Como nossos pais

 

Uma das alunas era filha de um bicheiro. Muitos de seus colegas sabiam, nem por isso a discriminavam. Outra, também muito querida, sempre pegava o bonde “9” (Botafogo), na porta da escola e, algumas vezes, coincidia de o cobrador ser exatamente o pai dela. Não sei se por isso ou não, ele era uma das pessoas mais queridas dos colegas da filha — e de toda a cidade. Havia filho de dono de botequim, de motorista de táxi, de carregador de mala na estação da Paulista, de relojoeiro, de cabeleireira. E de barbeiro – ia me esquecendo.

Claro, também havia filhos e filhas de engenheiros, médicos, empresários, executivos, professores e professoras, delegados de polícia, barnabés federais, estaduais e municipais. Filhos de meganha (Não sabe o que é meganha? Soldado da então Força Pública, hoje Polícia Militar.). Filhos de açougueiros e de merceeiros do Mercadão; filhos de radialistas, jornalistas e até de comunistas e integralistas. Tínhamos colegas filhos de políticos, de pais separados, desaparecidos, falecidos, viúvos e de viúvas.

Ali conviviam filhos de alemães, portugueses, japoneses, espanhóis, negros, brancos, egípcios, caipiras, italianos, nordestinos, judeus, árabes – e ninguém era marcado pela nacionalidade. Éramos todos brasileiros — do Brasil e de outras terras, fãs da Elis e do Roberto, dos Beatles, Elvis ou do Sinatra, da Ponte, do Guarani e até do Corinthians, tal a camaradagem.

Quer saber? Tínhamos, sim, colegas filhos e filhas até daquela em quem você está pensando agora. Sem malícia nem maledicência.

Nada demais. A escola era pública, ainda é, uma das mais antigas em atividade no Brasil. Não sei qual a magia da alma de seus professores, diretores e funcionários – mas todos faziam cada um de nós ser e se sentir igual ao colega. Eles tinham o dom de praticar a mais difícil e sublime distribuição de riqueza – a da riqueza espiritual. Acho que era assim, porque eles nos viam como seus filhos.

Éramos assim, porque éramos (e somos!) do Culto à Ciência. E dia 18, estaremos todos juntos no Ginásio da Unicamp.

Pregado no poste: “Não enforque essa aula de felicidade”

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