Com a xícara na mão

Hoje, fala-se em “pagar mico”. Antigamente, era “dar mancada”, “perder pontos”, “passar vexame”. Descobri: é de tanto pagar micos que a etiqueta é minha credora. Como diz Zé Vasconcellos, “o brasileiro é o único povo do mundo que valoriza a mancada; sabe que vai dar mancada e segue em frente, até o fim”. De fato, quando saí do banho e vesti aquela calça de linho zero quilômetro, passou pela minha cabeça que alguma coisa não ia dar certo naquela noite. Não deu, mesmo.

Do alto de sua sabedoria da roça, meu amigo João Garcia (e ninguém é caipira sem conhecer o João), avisa sempre: depois dos 50 não se deve comer ameixa com caroço nem vestir a cueca em pé – arrisca ficar banguela ou manco. Por isso aquela santa que mora aqui em casa já me pegou estatelado no chão do banheiro e já teve de correr comigo para o dentista de emergência. Sem falar naquela vez em que o zíper de uma calça Lee velha…

(Por falar nas caipirices do João, é assim: repórter que não gosta de Folia de Reis não trabalha com ele. Nome estrangeiro, ele esconjura. Outro dia ele escreveu: “Francamente. Numa das paisagens mais representativas da caipirice paulista, entre Mococa e lá pra perto das bandas de Mococa, alguém construiu um hotel fazenda e pôs o nome de ‘Cajuru Paradise’. Olhe que Cajuru em tupi-guarani quer dizer ‘boca do mato’.” Título da nota: “Tupi or not tupi”. Genial.)

Continuo avesso a festas e aquela calça de linho foi junto a uma, de lançamento do livro que escrevi com a biografia de um grande amigo, tão caipira quanto nós. Cenário: casa do filho dele.

Jantar, autógrafos, o escambau. Umas 200 pessoas. Fui o primeiro a ir embora. A cunhada do anfitrião levou a mim e aquela santa para tomar o cafezinho chique. Na hora em que ela me entregou a xícara e o devido pires, minhas calças foram para o chão! E eu não tinha aonde colocar a xícara e o pires, meu Deus! Cheio de gente na fila do café!

Senhora de extrema elegância, não moveu um músculo. Tomou xícara e o pires das minhas mãos, abaixei-me, ergui as calças e ela estendeu a mão só com a xícara, para que eu segurasse a calça com a outra mão. (Sentiu a sutileza?)

Estonteante categoria. Nem Caterine Deneuve. Em volta, todos mantiveram a expressão de paisagem. Despedimo-nos como se nada de estranho tivesse acontecido. Gente coisa é outra chique.

Pregado no poste: “Existem cuecas com suspensório?”

 

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