Coisas de criança

Muito antes de conhecer o Edivaldo Orsi, conheci o Cavalo. Elegante, educado, de conversa agradável, pessoa do mais fino trato. “Um campineiro daqueles”, como se dizia. Orgulhoso de sua cidade, numa cidade que se orgulhava dele. “O senhor sabe atuar? Por gentileza, precisamos jogar esta final em paz. Pode nos ajudar.” Essa solicitação, dirigida ao meu pai, em 1960, na colônia de férias do Sesc, em Bertioga, era para que ele apitasse a partida de basquete entre as melhores equipes daquela temporada. Todos ali chamavam aquele campineiro de Cavalo. Por muito tempo, até ser aluno de Inglês da maravilhosa Maria de Lourdes Pimentel, no Culto à Ciência, pensei que aquele fosse seu sobrenome, não uma jocosa tradução de “horse”.

Um ano depois, conversávamos na porta da diretoria do mesmo colégio. Ele, já formado na universidade, esperava que o diretor Euclides Pinto da Rocha o atendesse. Eu e o José Roberto Amaral, aflitos e escoltados por dona Gladys, severíssima inspetora de alunos, esperávamos a inevitável suspensão devida a uma farra na aula de Religião, pilhada pelo professor Benevenuto.

— Contem pra mim o que aconteceu.

— Foi guerra de giz, bem na hora em que o seo Benê entrou…

— Está bem. Quando o ‘Cridão’ me chamar, vou dizer a ele que foi ‘coisa de criança’; vamos ver se ele deixa isso pra lá.

Deixou. Aquele Cavalo, que encantava jogando basquete, nos livrou.

Nunca mais nos vimos. De repente, lá estava ele, ajudando fazer nossa Campinas melhor, na primeira gestão do seo Pagano, em seguida vereador e depois, vice do Grama. Quando o grande amigo partiu, foi o Cavalo que pegou as rédeas da cidade… Criou a Secretaria de Cooperação nos Assuntos de Segurança; abriu o primeiro concurso da Guarda Municipal; fez o pronto-socorro e o ambulatório do Ouro Verde; concluiu a nova Norte-Sul; duplicou parte da John Boyd Dunlop; implantou o projeto Alpha (salas de computação nas escolas); reformou a praça Carlos Gomes, o Largo do Rosário e outras áreas verdes…

Quando os ex-alunos da nossa escola fizeram aquela festa memorável no ginásio da Unicamp, em 1999, recebi dele este depoimento: “O Culto à Ciência era tão bom, tão gostoso, que um dia, estávamos terminando o Científico, o José Luís Bicalo, o Eduardo Zink e eu fomos à secretaria para saber se a gente podia se inscrever no ‘Clássico’, para continuar estudando lá… Que pena! Não podia.”

Coisa de criança que sabe o que é bom.

Pregado no poste: “Deus, segura as pontas, se não Campinas acaba, pô!”

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