Chamar quem?

Sábado, uma da tarde. Pela janela do apartamento, o menino assiste ao começo do fim-de-semana em Campinas. Cenário feio para um lugar que já foi sagrado na cidade. A paisagem está tomada por camelôs, paredeiros, malandros, carrioleiros, golpistas, gigolôs, trombadinhas, mariposas coitadas, espertalhões e milhares de sobreviventes honestos que por ali têm de trabalhar ou passar a caminho do Terminal Central, na tentativa de voltar para casa – e chegar vivo. Pelo menos inteiro. Há prédios inacabados, ruínas do progresso que parou para dar passagem à decadência. Retrato de uma Campinas nova, estragada, que nunca existiu.

Imagine que ali já foi a Campinas da Escola Rio Branco, que há muito fugiu para Barão Geraldo; da Igreja Luterana; das padarias Minerva e Vitória; dos armazéns de atacadistas; de algumas residências de famílias alemãs — Kachel, Hoss, Zink, Siler, Helwig, Seiffert – e do Clube Concórdia, agora acossado e sitiado pela violência, pelo medo e pela tristeza.

Foi chocante. De repente, ele chamou pela mãe: “Olha o que está acontecendo lá embaixo, bem na frente do prédio!” Um homem, que segundo a ingenuidade do menino “não é bandido porque está bem vestido”, foi pego e algemado pelas costas por alguém parecido com policial. Logo, chegaram dois carros parecidos com esses da polícia: “Uma preta e branca e outra cinza e vermelha”, pelo que deu para a mãe enxergar lá de cima, em meio ao aglomerado de gente curiosa que já cercava o ‘preso’. Começou a exibição de valentia contra um homem imobilizado.

Fala o menino: “Encurralaram o homem num canto fechado por duas paredes. Vinha alguém e socava a cabeça dele contra a parede. Vinha outro e repetia a agressão. Mais um, e era soco na orelha, murro no peito.”

Fala a mãe: “Como dizia meu pai, disciplina não é vingança. O cara já estava imobilizado. Que gente covarde! Covarde ou neurótica? Já nem sei mais. Se são policiais… Eles vêem tanta desgraça, que nem se controlam quando pegam um bandido. Só sei que não dá para confiar!”

Fala o menino: “Mãe, chama a polícia, mãe! Chama a polícia!”

Pregado no poste: “Patético.”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *