Cara Caravela

Coitada! Tudo deu sempre muito errado na vida incerta desta senhora. Nem seu nome certo, sabia? ‘Anunciada’, como queria um professor da Puccamp, ou ‘Anunciação’, como diziam na prefeitura? Ainda na prancha, o engenheiro naval que a projetou foi alertado por um engenheiro da CPFL, encarregada de cuidar da iluminação:

— Na hora do lançamento, não há risco de ela bater lá na outra margem?

— Que nada!

Ainda bem.

A dois meses da inauguração, a 22 de abril de 1972, para festejar o aniversário do Brasil e abrir os festejos dos 150 anos da Independência, o jovem que coordenava as obras do parque trouxe a Campinas um português, dono de um restaurante no Guarujá, que jurava descender de Pedrálvares Cabral. Na entrevista com o gajo, comecei a puxar a genealogia do descobridor e ele percebeu que confessara, sem querer: Cabral, seu ancestral, era filho de uma senhora de vida incerta. Ele me viu anotando aquilo e esbravejou: “Se puseres no jornal que ele era filho de rapariga, paro de conversar e vou-me embora.”. Foi. Pus. Ora, pois, pois!

No dia seguinte, uma página no ‘Estadão’, com fotos da velha senhora em obras, da bela jovem senhora do coordenador da obra, dele e do lusitano. Resultado: ciumeira. O jovem foi demitido. Afinal, não era candidato às eleições daquele ano. Alguns anos depois, acabou assassinado a tiros em alguma corrutela de um dos dois Matos Grossos. Adivinhe quem mandou matá-lo? Eu não sei.

A “cerimônia”, marcada para as 10 da manhã daquele 22 de abril, aconteceu de madrugada, para que o povo convidado não visse a vergonha, se não desse certo. Não deu. Sabendo da trama, mestre Mário Erbolato, chefe da sucursal de Campinas do ‘Estadão’, fez a equipe passar a noite na lagoa. Foi assim: a dita cuja zarpou e encalhou. Um secretário da Prefeitura, na ânsia de salvar a situação, sugeriu até um trator, amarrado a cabos de aço, para “desatolar” a coitada. Você já viu navio atolar?

Agora, ela começa a afundar pela segunda vez. Deixem-na ir, é muita vergonha para uma coitada que nunca mereceu atenção devida das “otoridades”. O que esperar da terra de Carlos Gomes, que demoliu o teatro com o nome de seu filho mais ilustre? Que deixa morrer na frente do Poder o jequitibá que dá nome ao Paço? E mata no largo da matriz o Alecrim que tem o nome da cidade?

Pegado no poste: “Políticos não devem sair de suas casas hoje!”

 

 

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