Campineiro e campinense

Nossa cidade perdeu um dos maiores historiadores de sua história. Odilon Nogueira de Mattos, respeitado mestre no Brasil e no Exterior, conhecia como poucos a vida das entranhas deste País que ele adorava e desta cidade, que idolatrava. Renovou o curso de História da Pontifícia Universidade Católica de Campinas, depois de brilhar na USP e na PUC paulistana.

Compôs um elenco extraordinário de educadores da ciência que ensina os motivos do passado para que o povo entenda o presente e tenha futuro: Maria Lúcia Rangel Ricci (eterna miss América), Maria Helena Degani, Salete Trujillo, Érsio Lensi, Lycurgo de Castro Santos, Valdir e Odete Verinaud Maier, José Cardoso, Domingos Tírico, Haroldo Niero, conde Sebastião Pagano, Rosalvo Madeira… E um homem cuja presença em sala de aula, por si só, provava a existência de Deus e a dignidade da vida: padre Narciso Ehremberg.

Odilon era único, porque sabia onde ficava o guichê. Graças a sua sabedoria de bibliógrafo incomparável, ganhávamos séculos ao pesquisar a história. Ele sabia onde encontrar informações corretas sobre o tamanho do cajado de Moisés, a cor das cuecas de d. João VI, em que gaveta o morgado de Matheus guardou os documentos da fundação de Campinas na Torre do Tombo, com quantos dormentes se faz uma estrada de ferro ou como Fernando Henrique Cardoso se saiu  numa tese sobre ferrovias, que o próprio Odilon orientou. Odilon dizia na hora o nome do livro, o autor e a página. Fenômeno.

(Uma vez, esse querido professor me confidenciou que FHC, na USP, defendeu aquela tese sobre ferrovias, sem nunca ter viajado de trem. No Brasil vale tudo: até coronel e general ser ministro da Educação; médico, da Fazenda, e economista, da Saúde. Estranho? Nelson Jobim confessou que violou a Constituição, está solto e é ministro! Odilon deve estar rindo do nosso infortúnio de sermos brasileiros.)

Lendo uma reportagem que fiz sobre a Festa do Peão de Barretos, ele me ensinou: ‘peão boiadeiro’ é o que conduz a tropa a pé, sem montar em cavalo; ‘peão de boiadeiro’ é o empregado do dono da boiada.

Nem os dicionários sabem ensinar a diferença entre “campineiro” e “campinense”. Para os aurélios e houaiss da vida, o primeiro nasceu aqui e o segundo numa dessas cidades que querem ser “Campinas”, mas se perdem por aí. Pois então, anote: campineiro e campinense nasceram em Campinas, mas campineiro também é o trabalhador das campinas.

Pregado no poste: “Odilon, campineiro, campinense e campeão”

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