Campinas da mata grossa

Não é fácil ser árvore em Campinas, mas elas ainda nascem. Uma dessas raridades urbanas brotou no viaduto “Miguel Cury”; foi vista pelo leitor Marcelo José Pércico Grohmann e exibida pelo repórter paulistano-vinhedense Natan Dias e pela fotógrafa paulistana-valinhense Janaína Ribeiro Maciel. Ela, com esse nome de poetisa, só poderia soltar sua sensibilidade e imaginar que a árvore serve para embelezar a via, decoração nascida no concreto. Como historiador frustrado, penso que essa verde obra da natureza, a desafiar uma obra cinza do homem, vai além da profecia de Pero Vaz Caminha: nesta terra, mesmo não plantando, tudo dá.

Só falta aparecer outro homem e assassiná-la, como fez aquele matador do sempre saudoso Alecrim de Campinas, que há seiscentos anos ornamentava o Largo da Catedral. Alecrim condenado à morte porque, segundo o carrasco, atrapalhava a visão de quem quisesse fotografar o templo, que veio séculos depois. Ou como os que deixaram morrer outro símbolo destas campinas, o Jequitibá Rosa, diante do Palácio dos… Jequitibás. Ainda na tarde de quinta-feira, Janaína e Natan velaram um centenário Flamboyant no distrito de Joaquim Egydio.

Nessa marcha célere de desmatadores, que matam ou deixam morrer, nossa cidade será só uma grande mata grossa.

Infelizmente, nossas ‘otoridades’ não observam o sentimento popular, para incentivar e preservar o que a alma da população demonstra, até sem querer, o que ela gosta, admira e respeita. Basta colecionar as fotografias feitas pelos leitores e fotógrafos do “Correio Popular”, finas estampas publicadas diariamente na seção “Cena Urbana”. A maior parte das imagens tem na árvore o foco perpetuado pelos autores.

Estão lá o caramanchão do Parque das Águas, do Ênio do Prado; os galhos refletidos em uma poça e o ipê rosa que dá um brilho inigualável à torre da Igreja de São José, na Vila da Fé, do Edu Fortes; o passarinho que se confunde com as flores amarelas, da Érica Dezone;  o tucano, admirado com uma árvore em Alphaville, da Maria Luiza Ramos Ferraz; as flores dos jardins do centro da metrópole são o “escritório” da abelha que cumpre sua tarefa diária colhendo o pólen, como diz o Estevam Scuoteguazza; no Jardim das Paineiras, o bando de sagüis expulsos de seu hábitat, em busca de refúgio numa árvore que restou…

Gente herdeira do nosso Hércules Florence, cada um na sua silenciosa “Misssão Langsdorf”. Parabéns e muito obrigado.

Pregado no poste: “Chega de queimada, jogue handball”

 

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