Brasília adota cartilha do Cecílio

Acontece cada uma! Não neste domingo, no outro, o colunista Ancelmo Goes, d’O Globo, fez a seguinte recomendação aos que sonham (ou precisam) viver em Brasília:

“Manual de sobrevivência — Longe de a coluna querer ensinar o Padre-nosso a vigário. Mas, em tempos de José Dirceu e Antônio Palocci, o bom lobista, aquele capaz de mergulhar no mar sem se molhar, deve aprender o sotaque caipira. Há o bom dicionário de Cecílio Elias Neto. Registra os ‘erres’ de palavras como porta (suspeita-se de influência americana) e recriações vocabulares como ‘arco’ (álcool) e ‘tarco’ (talco), além da presença italiana (‘caroça’ em lugar de carroça) e dos índios paiaguás na omissão das vogais de certas palavras.

Com Dirceu, mineiro de Passa-Quatro, roga-se usar, além de ‘paitido’ em vez de partido, cair na ‘saroba’ (cair na farra) e ter cuidado com ‘curuba’ (mulher brava) e ‘gato’ (empreiteiro, não de obras, mas de bóias-frias, embora o nome seja apropriado a ambos). E também ‘tirar os macucos’ (tomar banho), beber ‘lidileite’ (litro de leite) ou ‘pincumel’ (pinga com mel) e perguntar ‘onquié’ (onde que é?) Quanto a Palocci, que é de Ribeirão Preto, o melhor é oferecer ‘um chopes’ e ‘dois pastel’, como se diz por estas bandas.”.

O dicionário é o famoso “Arco, tarco, verva”. Famoso e profético. Se o Ancelmo tivesse lido desde o início, viria lá a seguinte historinha contada pelo nosso Cecílio Elias Neto, que se deu na ante-sala de um ministro, que demorava para atendê-lo:

“O chefe-de-gabinete se aproximou, justificando-se simpaticamente:

— O senhor me desculpe, mas a agenda está congestionada Infelizmente, não lhe posso dar atenção, tenho coisas a fazer. Aceita mis um cafezinho?

Respondi, amável:

— Num esquente a molera, taque duro! A quarqué hora o ministro me atende. Agora, quanto ao cafezinho, se eu quero? Mai nem! Aqui tá quente que é uma barbaridade!

— Meu Deus! O senhor é de Piracicaba, não é? Que saudade!

Ele era engenheiro-agrônomo, formado pela Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz. E, então, começou a contar de seus tempos de estudante universitário, de suas lembranças de Piracicaba, de sua saudade, de seu amor por nossa terra. Eu havia, com a minha maneira de falar, com o meu sotaque caipiracicabano, com as expressões que usei, deflagrado todo um processo emocional, na revelação do código de uma confraria muito especial e rara, guardiã de um estilo de vida, de uma filosofia de viver: o piracicabanismo.

Pregado no poste: “D. Izalene vai se candidatar à prefeitura – de Valinhos, né?”

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