Betão, vocês são duca!

Quando a Zina ligou para contar, uma lágrima rolou. Eu não sabia! Prêmio Esso, Betão! Outro? Lembro de quando a gente era pivete, começando essa vida nossa de cada dia, de contar a história à queima-roupa, e o professor Horta Lisboa dizia para o Carlitão Tontoli: “Carlito, esses meninos não param de trabalhar? Eu passo aqui de manhã, eles estão fuçando em tudo. À tarde, eles estão por aqui; à noite, quando vou embora, eles continuam aí. Outro dia, alta madrugada, encontro os dois em volta do telex. Sabe o que eles estavam fazendo, Carlito? Tentando falar com exilados do Brasil, lá em Santiago do Chile, no El Mercurio! Se o Dops pega, ferra a gente, por causa desses pivetes, Carlito!” Nós estávamos tentando entrevistar o José Serra e o Raphael de Falco Neto, lembra Betão?

Meses depois, aquele “pivete” deixava todo mundo de boca aberta e alguns de boca calada. Ninguém acreditava. O mais campineiro dos campineiros conquistava o cobiçadíssimo Prêmio Esso para sua terra querida. E não foi com uma reportagem feita fora da cidade, não. A notícia, o grande furo, o desafio instigante estavam ali, na cara de todo mundo, à espera de um repórter, daqueles puros-sangue, que vê um acontecimento capaz de mudar os destinos da comunidade a que serve, até num pingo d’água.

Quando computador era “coisa de americano”, “invenção de japonês”, “brinquedo de cientista louco”, “engenhoca das arábias”, um grupo de brasileiros (brasileiros, sim senhor!), alcançava a façanha de construir um computador em Campinas, lá no acolhedor “Sítio do Zefa”, a nossa Unicamp do professor Zeferino Vaz e seu fascinante Instituto de Física. (Sempre me refiro a esse instituto como “fascinante”, porque quando entrevistei o Beto sobre o prêmio que ele conquistou para os campineiros, ele definiu o lugar assim e eu não me esqueço disso.). Ali se fez o “Projeto Cisne Branco — o primeiro computador brasileiro”, que o Beto Godoy revelou para os brasileiros. Aquela luz, que faz desta cidade o ponto iluminado do Brasil, brilhou mais forte.

Desde aquele dia, até a vinheta da Rádio Cultura mudou. Seu Abel mandou a gente falar ao microfone, a cada intervalo: “Nós trabalhamos em colaboração com o Correio Popular, aquele que tem o Prêmio Esso de Jornalismo, tá?” E com que orgulho eu dizia isso! A cidade inteira se orgulhava. “Prêmio Esso” não era coisa só do Estadão, da Veja, da revista O Cruzeiro ou do Jornal da Tarde. O Correio da nossa Campinas também já estava nessa galeria dos maiores da imprensa do Brasil.

Agora, vem você com essa equipe que emociona a gente só de vê-la trabalhar e oferece ao Brasil o Prêmio Esso de “Melhor Contribuição à Imprensa”. Vocês não imaginam como estou me sentindo. A mil quilômetros de distância, com o peito estufado, conto pra todo mundo. Mesmo quem eu não conheço fica sabendo. Até o porteiro do prédio, que me entrega o jornal, manda parabéns. Ele é o primeiro a ler.

Aqui em casa, onde até o cachorro lê o Correio, foi uma festa. Fomos comemorar. No restaurante, lendo o cardápio, ‘ouvi’ sugestões de duas mulheres que adoravam você. “Escolhe aquela bacalhoada”, dizia minha mãe. “E de sobremesa, compota de morrango, porque o ‘Seuroberto’ gosta, viu?” Era minha avó. Não faltou nem o velho e bom “garrérmico”, o cafezinho que elas nos faziam quando saíamos para trabalhar. Lembra?

Parabéns, meu irmão. Ainda vale a pena ser campineiro!

 

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