Bem-vindo?

O milionésimo campineiro chega hoje. Palavra da Pró-Pesquisa, do Roberto Zamataro. Pontepretano ou bugrino? Nascerá aqui ou virá de fora? Filho de campineiros ou será mineiro, baiano, paulista até, ou estrangeiro? Não importa. Nosso fundador, o bandeirante Barreto Leme, veio de Taubaté, a mando do morgado de Mateus, preposto português, pois, pois.

Se não lhe derem à luz desta terra, é um dos 42 que diariamente buscam nossas paragens atrás do futuro. Chegava-se a Campinas sonhando com o futuro! Hoje, procura-se seu passado, em busca da felicidade, ainda que só na lembrança de cada um de nós. Que futuro esperar num lugar onde matam quase setecentos dos seus a cada ano? Esse milionésimo pode ser abatido antes de chegar amanhã. Infeliz cidade a nossa.

Chegar a Campinas, viver em Campinas, sonhar com Campinas era uma graça alcançada. E de graça. Hoje, quem nasce, chega ou tem pesadelos de que está aqui vai pagar caro por essa (des)graça sem graça. O milionésimo campineiro já vem saqueado – deve R$ 1.500,00 aos credores da administração de sua cidade. Dívida que ele não fez — fizeram por ele, sem consultá-lo. Vai encontrar seus novos conterrâneos de cabeça baixa, assolados por mesquinharias e horrores: bingo; donos do poder e familiares passeando em carros pagos pelo povo; prefeito assassinado; estradas pavimentadas com dinheiro do povo que levam a clubes de amigos do poder; a cultura esbulhada desta terra outrora culta e bela; camelôs mandando na Prefeitura; uma terra antes de campineiros, agora de ninguém.

Mas há um lugar onde ele será bem-vindo, recebido com festas e indisfarçáveis sorrisinhos. Com sua chegada, os outros 999.999 campineiros pagarão mais para sobreviver aqui. O bolo é o mesmo, a pobreza é a mesma, mas haverá mais doze à mesa, cada um trazendo um grupo de cinco bocas, pelo menos. Com um milhão de campineiros, nossa caríssima Câmara Municipal salta de 21 para 33 comensais sustentados pelo povo. Este ano, ela custa R$ 35,7 milhões (!), quanto vai custar por tua causa?

Ficaste com dó da cidade? Então, vai embora, antes que o IBGE te conte! Mas ao partir, vês se deixas uma lembrança, um alecrim plantado no Largo da Catedral. Esse campineiro mais o outro, seo Rosa, sim, fazem falta – apenas dois, valem por todos nós, milhão ou não. Velavam nossos sonhos de graça, a graça de Campinas perdida.

Pregado no poste: “O que nós fizemos para Valinhos?”

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