Beabá x Buuum!

Minha avó morava na Barão de Itapura 652 e amarrava caldeirões cheios d’água no trinco das portas, na hora de dormir. Se o ladrão tentasse abrir, vinha tudo por água abaixo e o barulhão seria ouvido até no “Pastinho”, velho campo do Guarani, ali perto, ou no ‘da’ Mogiana, pouco mais pra cima. Um dia, inventei uma brincadeira que me custou uns tabefes: como ela levantava todas as noites para fazer xixi, esparramei estalos de salão na porta do quarto. Quando pisou nos primeiros, puts!, foi uma gritaria. Mas daí ela aproveitou a brincadeira para espalhar aquilo nas portas. Em noites de maior desconfiança, diante de quem passava pela avenida depois das seis da tarde, a ilustre dona Guiomar amarrava uma cordinha (“marrio”, como dizia), de ponta a ponta, à meia altura do chão da sala, para o bandido ‘trupicar’. Ah! Galo, galinhas e a cachorra vira-lata eram soltos pelo corredor de entrada todas as noites.

(Mal sabiam os ladrões de galinhas da Campinas d’antanho que não achariam nada pra roubar naquele casarão. A não ser uma rádio-vitrola com a maior coleção de músicas italianas da avenida e um rádio movido a válvula que só pegava a Nacional do Rio – nem a Brasil, onde o filho José Sidney apresentava o “Disque sua música”, ela ouvia. Imagine perder a “Crônica da Cidade”, com o César Ladeira; o Repórter Esso, do Heron Domingues, o “Boa Tarde Madame”, da Yara Salles, ou “A felicidade bate à sua porta”, com Marlene e Manuel Barcelos).

Insisto: sou fã da Emilinha e tudo tinha seu lado bom, menos um disco da Marlene.

O lugar era seguro: a garagem dos ônibus da Bonavita, no fundo do quintal; o bar do seo Zé, com sorvete de milho verde, na Cândido Gomide; a passagem obrigatória da jardineira da Rhodia e das jamantas da 3M e da Leco, e um ou outro carro apressado rumo à maternidade, com alguém nascendo. Às vezes, monsenhor Bagio, pároco da igreja do Coração de Jesus, passava em seu Prefect preto, vigiado pelo Geraldo Trinca… Gozado: ele dirigia já todo paramentado e de chapéu – o padre, não o Trinca.

Outra “arma” era reagir a qualquer barulho estranho, gritando nome de homens: “Goitia! Gatica! Joki! Orlandi! Fantomas! Acorda! Pega ladrão!” Tudo nome de lutadores de luta livre, muito populares naquele tempo. Algum gatuno ia encarar?

Agora, em atitude meritória, nossa Polícia Militar lança a “Cartilha de Segurança do Cidadão”, na esperança de que o povo e os policiais possam sair às ruas sem topar com quem deveria estar na jaula. Pelo menos, diz a repórter Camila Ancona, o ponto de táxis bem na frente do batalhão da PM é alvo constante de criminosos. De que adianta cartilha, se a PM vai de 38 e o bandido vem de canhão?

Pregado no poste: “Seo delegado, pendure caldeirões d’água nas portas das celas, para nenhum fugir”

 

 

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