Ausentes no salão

O nacionalismo andava exacerbado e foi o último Carnaval da liberdade em raios fúlgidos, que brilhou no céu do Pátria naquele instante. Dois meses depois, tudo escureceu. Nem houve herói cobrado pelo penhor da igualdade. Quando ele partiu, o povo que sambava suas músicas ainda respirava e transpirava alegria, sem medo de escolher entre Pierrô, Colombina, Arlequim, o rei Momo ou sua rainha — nem se incomodava se lá em cima mandasse o bobo da côrte. Ontem, como hoje.

Foi num domingo como este de Carnaval, no começo de fevereiro, que Ary Barroso compôs sua última marcha – rumo ao infinito. Campinas ficou sabendo logo – naquele tempo, ainda havia gente assim nesta cidade. E eu conto como foi, porque eu vi, ouvi. E chorei, sim. Como chorei exatamente nove anos antes, sem saber porque a família chorava aquela Carmen Miranda, outra majestade, morta nos Estados Unidos. Com o tempo, descobri que não chorei em vão. Ela era “pequena”, mas “notável”, como a apelidara o radialista campineiro César Ladeira.

O Carnaval de rua seduzia: Leão da Várzea, Marujos, Ubirajara, Bola Preta, Nem Sangue nem Areia, a Voz do Morro, União da Vila, Estrela Dalva… Eram muitas e belas as escolas. (A cidade tinha escolas de samba, ficou sem samba na rua e logo não terá mais escolas públicas municipais ou estaduais.). E os clubes, poucos, mas animadíssimos: Cultura, Tênis, Regatas, Concórdia, Fonte São Paulo, Telefônica, Camões, Comercial, Dom Quixote e mais alguns.

Era o Carnaval de 1964 e João Goulart e seu bloco estavam prestes a dançar de vez. Naquele domingo, fui parar no Dom Quixote, clube da colônia espanhola, ali perto da Beneficência Portuguesa. Como nunca me senti súdito do Rei Momo nem de rei algum, não me lembro dos sucessos daquele ano. Mas posso garantir que a última música de Carnaval, que merece ser chamada de música, nasceu da alma do Zé Ketty, “Máscara Negra”, em 1967. Depois, veio 1968, o AI-5 e a festa acabou. Pode pesquisar, depois de “quanto riso, quanta alegria…”, quanto choro, quanta tristeza!

Pouco antes da meia-noite, um jovem, que eu não conhecia, foi ao palco, os músicos pararam de tocar e ele pediu um minuto de silêncio. Alguns, apesar da cena inusitada, não respeitaram nem se interessaram. Aquele jovem, então, comunicou o falecimento, “ainda há pouco”, do compositor brasileiro Ary Barroso, “esse artista maior, autor de muitas das marchinhas que alegram os carnavais do Brasil e que nós cantávamos até agora há pouco”. Esperou o minuto, o silêncio que não se fez e arrematou: “Muito obrigado aos brasileiros presentes”.

Quem foi Ary? Os jornais deste fim-de-semana estão contando parte de sua história, sua glória. Mas se você quiser saber de Ary pela Internet, tente exclusivamente os serviços internacionais de busca. Em sete deles, há 1.621 páginas! Numa delas (requinte), os nomes de escolas e logradouros públicos do Brasil com o nome de Ary! Os americanos sabem tudo do nosso compositor. Enquanto isso, nos serviços nacionais de busca, miseráveis nove páginas, todas falando da cidade mineira de Ubá, onde ele nasceu. E dele, quase nada. Ou nada. Enquanto tratarmos assim a nossa gente, também seremos nada.

Pregado no poste: “Os brasileiros continuam ausentes”

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