Aulas do além

“Ainda preferimos o ócio ao negócio. Ainda há muitos aventureiros, aqueles que preferem comer o fruto sem plantar a árvore — é o que distingue o colonizador do trabalhador, o senhor dos seus súditos. Nossa cordialidade vem mais do coração do que da educação. O Estado é apropriado pela família; público e particular se misturam e há grande desejo em alcançar prestígio e dinheiro sem esforço. A democracia foi no Brasil sempre um mal-entendido: os grandes movimentos sociais e políticos vêm de cima para baixo, o povo fica indiferente a tudo. A ausência de partidos políticos atualmente é um sintoma de nossa inadaptação ao regime legitimamente democrático.” (Pinçado de um magnífico resumo feito por Ynaê Lopes dos Santos, sobre o perfil do brasileiro, desenhado há 70 anos pelo pai do Chico, da Miúcha, da doce ‘Baía’, da Cristina, da Luíza, do Álvaro, do Sérgio e amor eterno de Memélia.)

Agora, descobrimos que um fantasma ronda Campinas. Sergito, filho de Sérgio Buarque de Hollanda, jura que o fantasma do pai visita sempre a biblioteca da Unicamp, que guarda a imensa jazida de dez mil livros do autor de “Raízes do Brasil”. Sorte desta cidade, berço de Guilherme de Almeida, outro grande amigo do nosso historiador maior. Tomara outros fantasmas viessem para cuidar dos nossos dias. Sérgio é grande, mas é pouco para tão grande gente.

Precisamos da vigília incessante dos escravos, operários, do maestro, dos cientistas, professores, artistas, médicos, empresários, campineiros mil, todos que se foram depois de deixar sua marca na construção esta terra única — e única terra — capaz de gerar o único povo que (ainda) tem do que se orgulhar. Leio aquelas observações de Sérgio e identifico quase todos os brasileiros, menos os campineiros, daqui e de fora, que assistem estarrecidos ao fim de uma saga.

Não vejo mais aquela expressão de respeito na face de quem é apresentado a um campineiro. Não vejo mais a cabeça erguida, o olhar altivo de quem se apresenta como campineiro. Os brasileiros eram iguais, os campineiros é que eram diferentes. Hoje, esta é uma cidade comum – era a única do mundo que não se distinguia por atrações turísticas, paisagens naturais, mas pelo perfil de seus cidadãos. Estamos iguais.

Iguais, por exemplo, ao energúmeno que um dia colocou “Raízes do Brasil” na seção de Botânica da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Por isso, Sérgio veio viver entre nós. Ele detesta mediocridade.

Pregado no poste: “Quero Campinas de volta”

 

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