Assim na guerra como no céu

Só depois de conversar com o pessoal do “Correio Popular” e do “Estadão”, descobri que passei hora e cinco minutos a caminho do outro lado da vida, “velado” por gritos, choros, súplicas, ladainhas, disparos de fuzis e metralhadoras de bandidos e tiros dos revólveres capengas da polícia. Pareciam armas de brinquedo perto do arsenal da quadrilha que levou R$ 6 milhões de dois carros-fortes da Prossegur, em assalto na Anhangüera.

Eram seis e meia da tarde de quinta-feira. Seo João, motorista da van Mercedes Benz que nos trazia de São Paulo com meia dúzia de passageiros, viu o trânsito devagar, quase parando, na altura do retorno e da pista de acesso à Usina São João de Araras.

— É acidente – disse. E acabou de acontecer; olhe quanta gente correndo pra cá, em busca de socorro!

À nossa frente, um ônibus do Rápido Ribeirão Preto avançou pelo desvio e chegou ao alto da rampa. De repente, parou e embicou rumo ao canteiro central. Começaram os gritos dos passageiros. Um dos 15 assaltantes entrou no ônibus e tirou a chave do contato. Naquela posição, ele se tornou uma grande “parede” para bloquear o movimento da estrada e facilitar a ação e fuga da quadrilha.

“Meu exército de anjos da guarda agiu rápido e eu não fui atrás do ônibus, porque as pessoas em fuga, na verdade, não vinham atrás de socorro para alguma vítima do acidente”, disse seo João, depois de passada a fuzilaria. Um homem gritava para nós:

— Abaixem, não levantem a cabeça, pare o carro! É assalto, tem tiroteio, um homem levou um tiro na boca. Seja o que Deus quiser!

Eles explodiram um dos carros-fortes da Prossegur.

De repente, o barulho dos tiros se tornou mais forte. “Agora, a polícia chegou. Esses tiros são de revólveres da polícia. Ela, com revólver; eles, com metralhadoras!”, lamentou o motorista da van. Estávamos todos abaixados, espremidos, rezando.  Atrás de mim, uma senhora alemã, mais de oitenta anos, esbravejava contra os bandidos, num sotaque típico de quem revela a fúria germânica, bastante conhecida pelos filmes de guerra.

Num momento de silêncio, ergui a cabeça e vi um homem com as costas coladas na traseira de uma jamanta, que trazia um contêiner da Hamburg Süd, do porto de Santos. Ele tentava se proteger. Por baixo da carroceria, um policial viu as pernas do que poderia ser um dos bandidos chegando sorrateiramente perto daquele homem apavorado. O soldado atirou, o assaltante correu, a bala zuniu no contêiner e fez aquele barulho que a gente ouve quando o tiro do mocinho acerta na pedra que esconde o bandido. O tiroteio recomeçou e desencadeou novo desespero.

Quase uma hora sob aquele tensão e em posição fetal acabaram com minha coluna. Os nervos de todos ali tinham ido embora, as orações já estavam embaralhadas. Seo João esperou um bom tempo de silêncio para se levantar e decidir continuar a viagem. Ele percebeu que uma camionete dos assassinos fugira rumo aos canaviais da Usina São João.

Durante todo o tempo, uma jovem, no último banco, brincou o com o filho de uns dois anos. Alheia a tudo. Seo João ficou bravo:

— Menina! Eu mandei você baixar a cabeça, deitar sobre essa criança e você ficou brincando com ela aí e sentada! Não viu o perigo!?

— Ah seo João! Isso pra mim não é nada! Eu moro no Líbano, o senhor se esqueceu?

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