Aroma de sedução

Foi em maio, num agosto, como este, ou em novembro. Não importa. O rei queria as sementes da riqueza, que germinavam vizinhas aos seus pagos distantes, além do oceano azul. Nem que para apossar-se delas, fingisse uma desculpa para novo acordo diplomático. Uma revisão no tratado de limites, quem sabe. Na matriz, distante do chão onde vicejava aquele ouro negro, quem provasse a infusão daquelas sementes queimadas e moídas mergulhava inebriado na atmosfera da alegria, do otimismo — do entusiasmo. Uma bebida que enriquece o espírito de quem a toma e as arcas da nação que cultiva a planta que dá o licor.

Ninguém conseguia mais esconder a sofreguidão com que se buscava o fruto daquela árvore da felicidade. A notícia varreu a Europa. Um marinheiro francês deixara morrer de sede toda a tripulação da nau que levava para as Antilhas mudas daquela planta, conquistadas na África. As últimas gotas de água a bordo eram para salvá-las, mesmo que os homens da comitiva morressem por elas. Morreram.

Dos cornos da África para as Antilhas, aquelas sementes vagavam pelo mundo atrás de seu verdadeiro chão, ainda não encontrado. Mas faltava pouco. Deram os primeiros sinais de aproximação na Guiana Francesa e era lá que o emissário do rei teria de buscá-las. Mas quem seria capaz de cumprir essa missão, essa façanha de trazer para a melhor terra a planta que a procurava para vingar? Um sargento, mas o sargento-mor da Coroa, fôra eleito. Mal sabia ele que estava predestinado a iniciar a história da riqueza de uma colônia com um gesto de sedução. Foi o recurso que encontrou ao desafiar a própria vida para satisfazer os caprichos de algumas sementes ainda insatisfeitas com o solo que a ofereciam para germinar.

A condessa de Mourville nem era uma mulher bonita e o conde tinha ordens de ser cruel com quem quisesse levar as sementes que mantinha sob guarda, pela honra de Luís XV. Que lhe roubassem a esposa, até; mas as sementes, jamais! Caiu na armadilha preparada por dom João V e executada pelo sargento-mor Mello Palheta. “Com a desculpa de rever o marco do tratado de limites entre as colônias do Brasil e da França, leve da sede do governador-geral daquela Guiana algumas sementes para plantá-las aí”.

Missão cumprida. Tão dedicado a Luís XV e àquelas sementes cobiçadas por monarcas do mundo inteiro, esqueceu-se o conde de dividir seu afeto com a condessa. Indignada por se sentir trocada por umas sementes, traiu o conde para livrar-se de suas “rivais”. Na manhã seguinte à sedução que se consumou, partiu Palheta de volta à colônia do Brasil com algumas daquelas preciosidades bem guardadas nos bolsos do colete da farda, que envergava com orgulho maior de atender à ordem de dom João V.

Semeou-as em Belém, na sesmaria que ganhara como prêmio pela aventura bem-sucedida. Mas a grande aventura estava para começar. Na nova terra, aquelas plantas exibiram um verde jamais visto na natureza. Ele brilha de alegria. A florada branca, nem campos de neve da Europa cintilam tanto. E aquele verde pintou o Brasil de Norte a Sul. Fez desta uma das nações mais alegres do mundo. Sua riqueza comprou e libertou os escravos, atraiu imigrantes de todas as terras, formou um povo ao seu redor. Herdeiros de todas as línguas confraternizam na hora de beber esse traço de união da humanidade, que fumega nas xícaras nos barracos e nas mansões.

Há 270 anos, o café chegava ao Brasil. Como é gostoso! Aceita um cafezinho?

 

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