Anata wa doko mi imasu ka?

Junho de 1978: intrigado, um repórter do Asahi Shimbum, cinco milhões de exemplares diários naquele tempo, me pergunta a troco de que o ‘Estadão’ dedicava um caderno de 36 páginas aos 70 anos da chegada dos primeiros japoneses ao Brasil.

— É que cada brasileiro conhece, é amigo ou parente de pelo menos um japonês. E quer saber? Não sei o que ainda seria de nós, não fossem vocês a nos ensinar um pouquinho da sua cultura.

Agora, essa gente delicada, de olhinhos puxados, celebra 100 anos entre nós. Só temos a agradecer tanta generosidade e paciência. Passei a me lembrar de muitos que passaram por minha vida. Claro, esqueci-me de muitos. Da maioria, talvez. Se você conhece alguns desses, diga que mandei lembrança e um sincero muito obrigado.

José Flávio da Graça Kaneko (a família tinha uma pensão na Campos Salles); Koiti Kamura; Akira Kondo; Taitiro Miassawa; Yuki, Massaro, dona Teresa, seo Kana e Mauro Higa (moravam na Rua José Paulino); Yoshime; Marina de Mattos; Napoleão Toshio Yamoto; Mário Nakano (melhor ponta-esquerda da história do Culto à Ciência); Kenji Honda; professores Morita, Nakata, Goto e Paulo Kobayashi; Haraki; Daniela Ota; Minoro Harada; jornalista Nair Keiko Suzuki (exagero de competência); Junji Abe; Cristina Samu; dona Teresa, Elza e Toninho Myasaka; Antônio Higa; Sakita; Tizuka Yamazaki; Mário Osassa; Yokishigue Tamura; Mitshita, Shiva e Naiotiro (grandes pescadores); uma japonesinha exemplo de delicadeza que se sentava à minha frente no curso Clássico, ao lado da Sônia Degrecci…

Dois tipos inesquecíveis:

Shunji Nishimura, bóia-fria nos anos 30 lá pras bandas de Marília. Gostava de inventar. Fundou a Jacto Máquinas Agrícolas e inventou a máquina de colher café. Em casa, malhava folha de flandres para fazer canequinha e vender para os colegas tomar café na roça. Vizinho, o delegado se enfezava com barulho. Um dia, invadiu a casa do seo Shunji de arma em punho e disparou três vezes. A arma falhou três vezes. Seo Shunji pediu o revólver, desmontou e devolveu: ‘Pode atirar; só estava sujo…”

William Kimura, jornalista do paulistano Diário Nipak, carnavalesco da Rosas de Ouro, o “Faustão” da colônia’. Brasileiro até a medula, desembarca pela primeira vez em Tóquio: “O imenso Buda do aeroporto de Narita, bateu na testa, desesperado. Quase me apedrejaram no metrô, quando perguntei o que estava escrito num cartaz. Tenho cara de japonês, mas sou brasileiro e eles se indignaram comigo. Onde já se viu japonês desse tamanho que não sabe ler!?”

Pregado no poste: “Anata wa doko mi imasu ka? = Cadê você?”

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