Ainda mais aqui…

“Morre o rico, morre o pobre; quero ver quem separa o pó do rico do meu.” (César Roldão Vieira, in “Deus com a família”, na voz da Elis.).

“Morre o gay, morre o homem; quero ver quem separa o sangue do homem do gay.” (Como diz o J. Toledo, “lavra pessoal”).

A barbárie continua.

Há quase vinte anos, quando a aids dava os primeiros sinais e assustava todo mundo, fiz uma mesa-redonda no Estadão, para debater aquela ameaça com as autoridades de saúde, que pouco ou nada sabiam, a fundo, sobre a síndrome. Mas todos aceitaram contribuir, menos um. Lembro-me bem da presença serena do doutor Caio Rosenthal, do Hospital Albert Einstein; do mestre Dráuzio Varella; de um então algo preconceituoso, mas sério e honesto, Vicente Amato, diretor do Hospital das Clínicas da USP, e de um veterano e competente infectologista do extinto Inamps, que lamentava: “A penicilina e os demais antibióticos eram a salvação da nossa especialidade; agora, estamos derrotados e perdidos”. Sobre a aids, o doutor Amato chegou a escrever um artigo no jornalão: “Te cuida Clodovil!”. Foi um escândalo.

Para meu espanto, o então diretor da Escola Paulista de Medicina argumentou diante do meu convite: “Eu não entendo nada de veados, convide a Valéria Petri; ela é a rainha da bicharada.” (!). Mas era o que eu queria ouvir. Para trazer a sensível e supercompetente Valéria Petri, precisávamos da autorização dele. Caiu do céu.

A Valéria teve em suas mãos o primeiro caso de aids clinicamente constatado no Brasil e, fatalidade, a primeira vítima. Foi ela também, a serviço da Organização Mundial da Saúde, quem desafiou aquele ditador, e provou que já havia casos aids em Cuba. E foi ela a primeira a exigir humanização no trato dos doentes e a ensinar: “Não existem grupos de risco, mas comportamentos de risco. Todos estão sujeitos a contrair a síndrome, se não se cuidar.” Sábias palavras, típicas de quem vive para servir.

Agora, há lei para eliminar os gays do exército voluntário de doadores de sangue. Com uma lei para eliminar governantes preconceituosos, será que sobra um?

Pregado no poste: “Arco ou tarco? Narco!”

E-mail: jequiti@zaz.com.br

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