Água!

Feliz foi Noé, que teve toda a água do mundo só para ele. Infelizes serão as futuras gerações, que ficarão sem água no mundo. O que se gasta, sem necessidade, é um absurdo, e o que se desperdiça, uma incompetência. Já existe muita gente preocupada, como o meu amigo Zeca Cafundó, editor do Suplemento Agrícola do Estadão. Recebemos uma pesquisa da Cornell University, New York, com um sinal de alerta e algumas recomendações. Hoje, elas parecem descabidas, mas, no futuro, talvez sejamos condenados por nossos bisnetos por não seguí-las. Coisa de americano, que tem mania de pesquisar tudo, até quantas horas um homem perde na vida amarrando os cordões dos sapatos.

Diz a pesquisa do professor David Pimentel que é melhor, desde já, trocar o bife com arroz por frango com batata, para… economizar água! Segundo ele, um boi bebe tanta água desde que nasce até ser abatido, com menos de três anos, que cada quilo da carne dele representa um consumo de 100 mil litros de água que ele bebeu até chegar ao açougue. E um quilo de arroz, da brotação na lavoura à colheita, 1.910 litros. Enquanto isso, um frango bebe só 3.500 litros por quilo de peso e um quilo de batatas usa 500 litros da germinação à mesa. Lembra daquela brincadeira “Cadê a água? O boi bebeu…”? Bebeu, mesmo. Pelas contas do cientista, um boi com 250 quilos só vai para o matadouro depois de ter bebido 25 milhões de litros de água!

É a carne do mais beberrão de todos os bichos acompanhada da mais beberrona de todas as lavouras, que muita gente leva para o prato todos os dias. O arroz só perde para a soja. Um quilo de soja “bebe” dois mil litros. O trigo e a alfafa usam 900 litros; o sorgo, 1.100 e o milho, 1.400.

O Cafundó andou escarafunchando velhos manuais de como usar a água corretamente e descobriu que cada brasileiro tem uma oferta de 46 milhões de litros de água por ano, à sua disposição, enquanto um árabe saudita só tem dois milhões.

Lembro de um prefeito da Cidade de Cabo Frio que teve a pachorra de medir: nós, brasileiros, gastamos 150 vezes mais água do que realmente necessitamos. Ele estava indignado. Falou do grande desperdício, agravado nas cidades que colocam flúor na água. O homem esbravejou: “Onde já se viu? No Brasil, a população chega ao requinte de lavar calçada com flúor. Não é um luxo?” Esse prefeito, puxando a sardinha para a cidade dele, grande centro salineiro, propõe que em vez de se adicionar flúor à água, que se coloque no sal. Tem sua lógica, uai…

Os franceses também fazem as contas deles. Sugeriram vender um iceberg à Arábia Saudita. O imenso bloco de gelo deixaria o Pólo Norte pesando 100 milhões de toneladas e, dez mil quilômetros depois, arrastado por quatro rebocadores, chegaria à Península Arábica ainda com 80 bilhões de litros de água. Preço dessa água nos supermercados sauditas: US$ 0,60 o litro. Já imaginou? Um bloco de gelo avaliado em US$ 48 bilhões (um terço da nossa dívida externa) singrando os sete mares, em direção às águas do Mar Vermelho. Ficaria mais barato chamar Moisés de novo, para abrir caminho entre aquelas águas, mas desta vez, levando o povo árabe em direção à terra, digo, à água prometida. Os israelenses ficariam orgulhosos, os árabes eternamente agradecidos e o mundo, finalmente, em paz.

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