Agora, eu conto

 

Campinas deve muito a dom Roberto Pinarello de Almeida, que nos deixou para ser bispo em alguma diocese no Céu. “Sabe como é, Deus chamou; quem manda é ele, obedece quem tem juízo…” Não me esqueço desse seu recado, sempre bem-humorado, quando me encontrou certa vez saindo da faculdade em horário inesperado. “Vou ao velório de um tio…”, justifiquei. Pensando bem, quem justificou – e me confortou — foi ele, com aquela mensagem.

Dom Roberto, homem do Amparo, é um dos arquitetos da grandeza da nossa Universidade Católica, que se fez pontifícia por obra de grandes mestres que com ele a semearam – monsenhor Emílio José Salim, padre Couto, cônego Amaury Castanho, cônego Haroldo Niero, padre Narciso Ehremberg e o magnífico reitor que sucedeu ao monsenhor Salim, doutor Benedito José Barreto Fonseca.

Estava em Roma na manhã de sexta-feira, quando foi chamado ao Céu. Preparava-se, justamente, para a missa que no domingo passado, no Vaticano, celebraria o jubileu de ouro do seu sacerdócio.

Padeceu conosco na ditadura militar. Como vice-reitor acadêmico da  Puccamp antevia a decadência do ensino no Brasil: “As escolas públicas vão se tornar ‘mobrais’ e as faculdades, ‘ginasiões’”, disse-me uma vez. Avaliação que, obviamente, virou poema de Camões por obra da censura no Estadão.

Conversávamos muito – e como se aprendia conversando com ele! Então ele me deu um ‘furo’ de reportagem. No prédio central da universidade, fez um sinal, chamando-me para sua sala, que ficava a caminho do gabinete do reitor Barreto Fonseca, e disse, voz baixa, como se revelasse um segredo: “A universidade vai se tornar pontifícia! Ganhamos a disputa! As de Santos e Recife também estavam pleiteando!”. E me contou toda a história dessa conquista para a escola um dia plantada pelo monsenhor Salim. Só me pediu que não colocasse seu nome na notícia. “Obedece quem tem juízo…”, lembrei.

No dia seguinte, o reitor viu o “segredo” no Estadão, e, com todo respeito, mas pressionando, exigiu: “Um dia você vai me contar quem revelou esse segredo para você, não vai?!”.

Quase trinta anos depois, caro doutor Barreto, eu conto. Agora, olhe para dentro dos nossos corações e veja dom Roberto rindo de nós…

Pregado no poste: “De bom em bom, o Céu se enriquece”

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