Acorda, patativa!

Eu sabia que aquilo não ia dar certo, mas como ele insistiu, fomos fazer serenata para a Maria Nula, que morava num sobrado antigo da Rua Professor Luís Rosa. Um quarteto maravilhoso, aquele: Lemão, o que insistiu; Maninho, Mi e eu, que não cantava nem tocava (desafino até quando toco campainha). Só ouvia e dava apoio moral. Um quarteto que nada tinha a ver com os atuais “Amigos da seresta”, de quem a Danielle Millarski e a Marina Franco contaram domingo, na “Revista”. Afinal, com eles, a serenata sempre acaba bem e toda a vizinhança gosta. Mas com aquele quarteto, até os cachorros uivavam — de dó da gente…

Nosso grupo fazia lembrar uma passagem histórica do Noel Rosa e seu amigo Malhado. Vou deixar que a biografia do João Máximo e Carlos Didier contem: “Malhado pensa, principalmente quando Noel lhe diz que comporá uma romântica valsa para que cante em primeiríssima audição sob a janela das moças. Uma valsa cheia de paixão, Malhado devendo pôr nas palavras todo o seu sentimento. E não é só: Noel já tem todo o esquema armado para que só Malhado brilhe, nesta noite de seresta. Enquanto Malhado vai cantar dentro da vila, bem na porta da casa das moças, Noel ficará do lado de fora, sem ser visto, acompanhando-o ao violão. É bonita, bonita demais. E cheia de palavras difíceis, daquelas que Catulo gosta de usar em suas canções. Tem razão: não é possível que as moças não se impressionem. Chegando à entrada da vila, Noel aponta para Malhado a casa do coronel: — ‘É ali. Quando estiver pronto, faz sinal pra mim que eu entro com a introdução.’. Malhado obedece, chega à porta da casa do coronel, aproxima-se o mais que pode, faz sinal para Noel. No momento exato, bem alto, e dando a cada palavra uma interpretação comovida, Malhado canta: ‘Eu saí da tua alcova/ Com o prepúcio dolorido/ Deixando o teu clitóris gotejante/ Com volúpia emurchecido./ Porém, o gonococus da paixão/ Aumentou minha tensão…’. Malhado não chega ao fim da valsa. Para seu espanto, em vez de aparecer na janela uma das lindas moças de que Noel falara, surge um alucinado cidadão de pijama, revólver em punho, aos gritos: — ‘Canalha! Imoral!’”

Não fomos canalhas nem imorais naquela madrugada, na Rua Professor Luís Rosa. Mas o Lemão inventou de imitar Vicente Celestino debaixo da janela: “Canto/ E a mulher que eu amo tanto/ Não me escuta, está dormindo/ Canto e por fim/ Nem a lua tem pena de mim/ Pois ao ver que quem te chama sou eu/ Entre a neblina se escondeu”.

Acontece que os seresteiros se reuniram sob a janela errada, bem debaixo da que dava para o quarto da avó da Maria Nula. Naquela noite alta de céu risonho, um enorme pinico apareceu pela fresta da veneziana e tomamos um banho que mandou todo mundo pra casa depressinha…

Eu falei que não ia dar certo. Onde já se viu fazer seresta daquele jeito? Valsa com violão vá lá, mas com bumbo e pandeiro, também?

Pregado no poste: “Não confunda sukita com cicuta”

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