A volta da velha senhora

Ela chegou com 19 dias de atraso e nunca fez questão de ser muito simpática com Campinas. Uns quinze ou vinte anos depois, foi-se embora, emburrada e pirracenta. Ninguém por aqui deu bola. Agora, menos arrogante, mais humilde e melhor administrada, apesar da maldisfarçada gauchice, fala em voltar, talvez disposta a se redimir daquele ciúme bobo, e descobrir, para sempre, que este é seu ninho – mais aconchegante, até, do que os Pampas.
Ela partiu, porque queria que o nosso Aeroporto de Viracopos levasse o nome de Rubem Berta, ex-presidente da primeira empresa aérea brasileira. Os campineiros não deixamos, assim como não pode mudar para Carlos Gomes, Franco Montoro, Mário Covas ou o raio que os parta.
É a Varig – “Estrela brasileira no céu azul, iluminando, de Norte a Sul; mensagem de amor e paz, nasceu Jesus, chegou Natal; Papai Noel, voando a jato pelo céu, trazendo um Natal de felicidade, e um Ano Novo cheio de prosperidade…”. O jingle insuperável e inesquecível de Arquimedes Messina, um dos melhores da publicidade brasileira, arrematado por Humberto Marçal, o melhor locutor do Brasil, marcando o bordão criado pelo José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, ele mesmo, o Boni: “Varig, Varig, Varig!”.
Chegou atrasada a Viracopos, porque o melhor e mais seguro campo de pouso do Brasil entrou na era do jato aos nove minutos de 21 de outubro de 1960, pelas asas de um Douglas DC-8 N-812, da maior empresa aérea do mundo na época, a Panamerican. Seu comandante, Vanderberg, trouxe dez passageiros de Nova York e um de Port of Spain. A velha senhora só pousou no dia nove de novembro, vinda de Nova York, com seu Coronado 990 A, prefixo PP-VJA. Palavra do repórter Zeca Castro Mendes, do Correio Popular, naqueles tempos heróicos, e das pesquisadoras Marta Fontenelle e Fabiana Bruno, nestes tempos de volta da filha já não tão pródiga…
Quem anuncia esse assédio é o presidente da própria Varig, o ex-coronel Ozires Silva, também ex-presidente da Petrobrás e da Embraer. Diz que em junho já estará restabelecida a ligação Campinas-Miami-Campinas. O Ozires, ao contrário da Varig, sempre gostou de Viracopos. Palavra do repórter Roberto Godoy. Até tentou, com ajuda de árabes e, depois, de japoneses, implantar uma ligação ferroviária entre o aeroporto e São Paulo e com o Vale do Paraíba. Políticos e outros medíocres fizeram de tudo para não deixar. Quem sabe agora…
Pregado no poste: “O que senhora tem feito de bom, dona Izelene?”

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