A vara

Podia ter acontecido em qualquer cidade do mundo, menos em Campinas. Nem Pelotas passou por aquele vexame. Tenho até vergonha de contar essa história. Quando vi a manchete do Correio do dia 6, tive um calafrio. Li duas vezes para ver se estava tudo certo e, ainda com medo, pulei para o caderno ‘Cidades’: “Tribunal de Justiça amplia estrutura do Judiciário em Campinas” e “Ampliação do Judiciário cria 16 novas varas em Campinas”. Que alívio! Nada errado.

Uma campanha de anos, movida pela imprensa da cidade para ampliar o número de varas no Palácio da Justiça, terminou em desastre. (Naquele tempo, meados dos anos 60s, o fórum se chamava Palácio da Justiça. Estava ficando tão pequeno, que já justificava o novo nome: Palhoça da Justiça…). E antes da construção da Palhoça… digo, do Palácio dos Jequitibás, até a egrégia Câmara Municipal funcionava no fórum, pendurada lá no último andar — no começo, sem direito a elevador para os nobres edis, a fim de não atrapalhar a circulação dos meritíssimos. Um caos: o Legislativo servindo-se do Judiciário.

E tudo o que Campinas pleiteava era mais uma vara para desafogar a eternamente sobrecarregada pauta dos senhores juizes – mais de sete mil processos distribuídos somente neste ano.

Desta vez, sem campanha nem nada, eis que o Tribunal de Justiça de São Paulo, numa atitude surpreendente, anuncia que vai dobrar o tamanho do Poder Judiciário na cidade, com a criação de 16 varas de uma vez. Tanto que o doutor José Henrique Torres, diretor do Palácio da Justiça, disse que será preciso construir outro fórum, porque o atual já está com 17 varas.

Mas naqueles distantes anos 60s, o anúncio de que o Tribunal de Justiça havia decidido conceder mais uma vara para o nosso Palácio, também foi recebido com festa e ganhou manchete de um jornal campineiro (Juro que não me lembro qual.). E a manchete, ai que vergonha!, foi esta: “Nova vara em Campinas é pinto pacífico.”.

Pregado no poste: “E o plebiscito para decidir sobre o celibato dos padres?”

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