A última testemunha

Ninguém foi mais campineiro do que ele. Quando os bandeirantes de Barreto Leme chegaram para descansar e fundar esta terra, ele já era imponente, majestoso e generoso como a cidade que viu nascer, crescer e se transformar no ponto luminoso do Brasil. Destas campinas, tornou-se símbolo, assim como o irmão Alecrim, que tombou assassinado anos atrás. Mas chegou a hora de partir. Abatido pela idade e pelo desprezo dos que deviam cuidar de sua vida, seo Rosa, nosso Jequitibá querido, que jamais negou sombra, conforto e alívio para os que procuravam refúgio ou repouso, viajou em busca do irmão conterrâneo.

Saudade?

Qual a sua idade certa? Três séculos? Cinco? Seis? Doze? Certo, mesmo, é que seu tempo foi tão imenso quanto sua exuberância. Ele honrou esta Campinas com a responsabilidade de quem ajudou a criá-la. Agora, vai deixá-la órfã. Maus presságios. Quem está nos deixando ao abandono é um ser acima de qualquer suspeita, que viu tudo e talvez estivesse cansado de tanta pequenez. Por que ser altivo diante de quem prefere ser vil? Ser grande, se determinados homens que conduzem os destinos de sua cidade não querem crescer? Ser generoso, se muitos de seus vizinhos exibiam egoísmo, indiferentes à sua presença. Sua paixão só era correspondida pelos campineiros de verdade – destes, ele jamais se esquecerá, certo de que um dia nos receberá no Céu.

Foi um exemplo de dignidade e fé na vida, raramente seguido pelos homens do Poder que “trabalharam” ou trabalharam no palácio sob sua guarda. Quase todos sempre muito pequenos perto dele. Meus amigos agrônomos dizem que o nosso Jequitibá “é uma árvore tão monumental e admirada, que batiza cidades, praças, ruas, parques e palácios.  É uma das maiores e a mais exuberante da flora brasileira.” A cidade perdeu sua sentinela.

Seo Rosa, assim o trata meu amigo José Hamilton Ribeiro, era a última testemunha da nossa história. Assistiu à ascensão e glória de Campinas. Dividiu com nossa gente alegrias e amarguras e esteve sempre com os campineiros que lutaram contra todas as dificuldades. Jamais esmoreceu nem nos abandonou. Nunca se omitiu. Ensinou os caminhos certos nesta jornada de mais de dois séculos e inspirou nossos irmãos de ontem e de hoje na escolha do que é melhor para todos. Quem não buscou nessa árvore um abrigo para meditação errou, fracassou — jamais amou Campinas.

Na última vez em que estivemos juntos, já estava muito triste, abalado com a morte cruel do irmão Alecrim e de outro velho companheiro, o prefeito Grama, que às vezes ia despachar sob sua sombra na marquise, atrás de bons conselhos e proteção.

Sua vida na terra que ajudou a criar terminou numa manhã chuvosa de verão, tempo de dar sementes, que não vieram desta vez – sinal de que a missão estava cumprida. Por ele, para perpetuar sua memória, esperemos um gesto de grandeza de nossas autoridades, se é que elas sabem o que é grandeza. Que seus troncos e galhos maiores sejam divididos em partes generosas e esparramados por todos os parques, praças e escolas de Campinas. Em cada pedaço dessa árvore maior, uma inscrição esculpida em sua própria madeira:

“Seo Rosa, o primeiro cidadão de Campinas”.

Pregado no poste: “Não sabem cuidar de uma árvore, querem cuidar de uma cidade…”

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