A testemunha

Aconteceu há muitos anos numa cidade brasileira. Onde? Não me lembro. Memória fraca dá nisso. Foi um escândalo. A culpa não foi do juiz. Nem estou me lembrando desta história por causa de juizes que choram o direito de ter mais direitos do que nós, cidadãos diferentes deles. Também não disse que foi um escândalo por isso. A lembrança é por causa da Justiça. Ela tem peculiaridades que nem os juizes explicam, por mais que expliquem as razões de se aposentar com a ajuda dos nossos pecúlios.

Fazia uma reportagem sobre a situação do Judiciário e como ele é conduzido por seres humanos, está sujeito a erros. Dei de cara com casos injustíssimos. Um filhinho de papai absolvido porque, afinal, seus advogados provaram que o coitadinho havia “cometido estupro em legítima defesa”. Um juiz liberou um caminhão de maconha sob o argumento de que o laudo não especificava se era maconha “macho” ou “fêmea”. Como só a “fêmea” tem princípio ativo, na dúvida, ele beneficiou o réu – para desespero dos policiais federais e espanto do próprio traficante que dirigia o caminhão. Foi uma luta convencê-lo a deixar a cela, livre para trafegar e traficar sua carga da morte pelo país e com autorização judicial!

Mais? Numa dessas “faculdades de direito”, encontrei um aluno que, no ano anterior, lecionara Medicina Legal para sua própria turma! Sua única “credencial”: auxiliar de enfermagem do legista da cidade. Também não sei como defuntos à disposição IML precisam de enfermeiros. Esse “professor” passou de ano, aprovado por ele mesmo. Vi juiz tomando uísque no bar de um hotel com o réu, homicida que acabara de mandar prender. Mas como? “Ele é meu réu no Brasil; aqui, do outro lado da avenida, fica o Paraguai e, deste lado, não posso mandar prendê-lo. Tem mais: aqui, ele é meu amigo…”

Por isso, livrar a pele dos assassinos do índio Pataxó não me assusta.

Naquela cidade, até o coitado do juiz ficou indignado com a Justiça. Um advogado, separado da mulher, foi visitar o filho pequeno que estava com ela num clube da cidade. Ao vê-la com o menino no colo, puxou o revólver e matou a ex-mulher à queima-roupa. A criança caiu no chão. Ele fugiu do clube e escapou do flagrante. Depois que se apresentou à polícia, teve de comparecer ao fórum, para uma audiência perante o juiz. Foi. Armado. Na sala, desentendeu-se com o ex-sogro, abriu a pasta, tirou o revólver e o matou. Na fuga, matou também o policial militar que tentou contê-lo.

Um dia, conseguiram prendê-lo. O julgamento paralisou a comarca. E o assassino foi absolvido. O juiz me contava essa história e suava frio. De raiva.

No tribunal do júri, o carisma de um advogado capaz de seduzir o corpo de jurados arremessou aquele triplo homicida qualificado aos braços da liberdade. Foi fácil. O advogado fotografou o réu na cela – uma pocilga como são as cadeias do Brasil. De formação universitária, o criminoso tinha direito a uma cela especial, de que a comarca não dispunha. Na hora de escolher os jurados, o advogado teve o cuidado de escolher sete profissionais de nível universitário.

Você já está prevendo o absurdo, né? O advogado exibia as fotos do “coitado” na cela e, em vez de defender o indefensável, atacou o sistema penitenciário, alertando dramaticamente cada um dos jurados: “Se um de vocês tiver a infelicidade de cometer um crime, olhe como serão tratados pela Justiça! Olhe aonde ela e a polícia vão jogar você!”

Sete a zero. O Brasil perdeu.

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