A razão

Alguns nomes já se apagaram na memória. Mas o rosto e a voz de cada um, jamais. Se eu os encontrar por aí, volta tudo: nome, endereço, local de trabalho, time de futebol… Era uma classe de seus trinta alunos, naquele Clássico noturno de 1967 do Culto à Ciência.

Primeiro, por motivo de hierarquia e eterna reverência, pois somos do tempo em que nossos mestres eram tão sagrados quanto nossos pais, vamos nos lembrar deles: Maria de Lourdes Pimentel e Amarilis (Inglês), Maria de Lourdes Ramos (Grego… Sim, senhor, lá aprendíamos Grego, graças a Zeus), Morita (Biologia), Odete Verinaud Mayer, uma doçura de pessoa (Geografia), José Alexandre dos Santos Ribeiro (Português), Mário Scolari (Latim), Luciano Perrone (História), Guilherme Leanza (Francês), Samuel Martins (Filosofia)… Que currículo! Nem na Unicamp… Harvard? Sorbonne? Quem sabe? Outra diferença: tínhamos paixão pela escola; respeito quase religioso por eles e eles, dedicação sem fim por nós. Batia o sinal e ninguém ia embora.

E quem éramos nós? Sônia Maria Degrecci mais uma japonesinha linda e outra menos magrinha, que não se largavam; Rosa Ricciardi, Mônica, Eliane Aparecida Torres, Ana, Clara ou Feliz(bela)?, Tilly, Douglas Wolmar, Edson Leite, Guilherme José Amâncio, Gallardo, Lindolfo Jorge Leite, Ricardo (?) Wolfgang Righetto, Edson (?) Frungillo, Valinho Capellato e um que servia o Exército de dia e dormia na classe à noite…

E o Sidnei Levi. Raciocínio mais rápido do que o do Faustão. Presença de espírito mais marcante da escola. Criatividade acima de tudo. Aula de Português com o querido Xandoca e o Levy na sala tinha outro sabor. Pareciam dois repentistas se desafiando sem parar. Ninguém queria perder um movimento, uma frase. Uma aura mágica envolvia a sala 4. Foi aí que aconteceu o diálogo que entrou para a história daquele templo:

Professor Alexandre: Cuidado! Sua insolência cresce em progressão aritmética. Mas minha paciência se esgota em progressão geométrica!

Levy: Mas eu tenho a  minha razão…

Nossa! A classe quase veio abaixo. Até o doutor Telêmaco, nosso eterno diretor, saiu da Diretoria e entrou naquela sala para aplaudir.

Puts! Como era bom estudar naquela escola!

Pregado no poste: “Os estudantes de hoje sabem o que é razão?”

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