A propósito

Existe um livro que todo jornalista deveria ler. Chama-se “Cabeça de turco”, obra de um repórter puro-sangue alemão, de nome Günter Wallraff. Dizem alguns humoristas que não existe alemão fraterno. Pois o Günter é. Fez o que muitos cidadãos de povos ditos fraternos não fariam pela humanidade, justamente em nome da fraternidade entre os povos. Günter passou por uma dolorosa cirurgia plástica, que lhe modificou completamente as feições saxônicas, ganhando aparência de turco. Até treinou para aprender a falar alemão como um turco. Pôs lentes de contato escuras, peruca de cabelos pretos e bigode farto.

Ficou igual aos turcos que a Alemanha recruta aos milhares para fazer o trabalho que os alemães não fazem mais: limpar chaminés de siderúrgicas e bacias de privadas de grandes empresas, chapeiro de lanchonete, motorista particular, varredor de ruas, lixeiro, faxineiro. O trabalho pesado e sujo que, de verdade, foi decisivo para a recuperação econômica do País depois da Segunda Guerra.

Günter quis provar – e conseguiu – que ainda há muito racismo e preconceito na sua terra (como em qualquer lugar). Ele mostrou, numa fantástica série de reportagens, como os turcos e outras minorias étnicas são tratados na Alemanha em relação aos nascidos lá. Claro que o jornal em que ele trabalhava se recusou a publicar as denúncias – todas profundamente comprovadas. Foi demitido. São chocantes, dão nojo da raça humana. Outros jornais alemães também preferiram recusar. Günter, então, escreveu um livro, traduzido para o Português. Está nas livrarias, pela Editora Globo, apesar de ter sido escrito há quase quinze anos. Parte dos direitos autorais é doada para o Fundo de Solidariedade aos Estrangeiros. Leitura obrigatória.

Olhe só o que ele conta de sua passagem por uma siderúrgica: “…um operário caiu acidentalmente no alto-forno e num segundo virou brasa. Como nada restou, pegaram simbolicamente um pouco de aço fundido e entregaram à família para o ‘enterro’. Na verdade, o corpo do operário fundiu-se no aço e foi parar na laminação, onde se transformou em chapa para automóveis, panelas ou tanques.”. Brrrr!!!

“Parem de usar animais como cobaias – usem os turcos”: com esse ‘apelo’, pichado em um muro de Disburg, Günter começa o capítulo em que narra sua experiência de cobaia humana em laboratórios farmacêuticos. Lá, pelo menos, pagavam dois mil marcos por “experiência” com novos medicamentos. Duas historinhas:

  1. Neill Rush estava testando um remédio para arritmia cardíaca. A combinação com um sedativo muito forte provocou sua morte fulminante. A firma não quis se responsabilizar pela morte de Rush. Para ela, “tratou-se de um ato irresponsável por parte do voluntário que, um dia antes, havia tomado o sedativo em outro teste”.
  2. Um sujeito mais jovem diz que não ficou até o final de um teste porque lhe aplicavam tranqüilizantes muito fortes. São sedativos que rapidamente levam ao vício. Depois do teste, todos os participantes ficaram abobalhados. Alguns caíam sem conseguir ficar em pé e precisavam ser carregados. Mas se você der uma olhada no relatório a seu respeito, verá que na coluna “efeitos colaterais” tem uma cruz no “não”.

Pregado no poste: “Prefiro ser cobaia de fábrica de colchão”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *