A moça de suéter azul

Durante o dia, ele era o “Toninho”, caipira de Cravinhos, bom de bola, que acabava com o jogo naquele campinho atrás da fábrica de chapéus do seo Miguel Cury. Dava um show no time de Fraju, Jamelão, Bita, Lúcio, Lemão, Lineu, Cadão, Maninho, Wilson Peludo, Robertão, Júlio, Vornei (que saudade!), Juvenal, Lindolfo e Pancudo. Mas à noite, “Toninho” virava o “Capitão Toni”, “o jovem que fugiu com a família da Rússia comunista”. E dava um show no parque de diversões, ao lado do campinho, pilotando uma moto envenenada no globo da morte.

Era 1960, 61, e aquele foi o primeiro globo da morte instalado em Campinas. Novidade absoluta. Todo mundo chamava aqueles rapazes de malucos. Imagine: ele e um parceiro rodopiando de moto em alta velocidade, trancados na imensa esfera de aço trançado. Se um bate no outro, morrem dos dois — despedaçados. Mas ninguém fazia nada para impedi-los. Alguns, sádicos, torciam pela tragédia, que nunca se deu.

E o parque fervilhava. Brenda Lee, com seus 15 anos, esgoelava “Jambalaya” em todos os alto-falantes, dividindo o som com Leny Eversong (A noiva), Cely Campello (Túnel do Amor), Elza Laranjeira (Tome continha de você), Agostinho dos Santos (Dindi), Lana Bittencourt (Queridinho), Doris Day (Pillow Talk), Maysa (Alguém me disse)… Gostoooso como pipoca com mel, algodão doce, amendoim torradinho, maçã do amor… Lembra?

No serviço de som, um radialista, hoje aposentado, ganhava uns trocados com seus avisos românticos. Era a paquera eletrônica, quando ninguém ainda usava essa expressão nem sabia direito o que era ‘eletrônica’. “A moça de suéter azul oferece para o rapaz de calça rancheira e jaqueta James Dean”. Todos os rapazes de calça rancheira e jaqueta James Dean, moda na época, faziam fila para saber quem era a moça de suéter azul. “Quer saber? Paga cincão.”. E os garotos pagavam pela informação sobre uma moça que nunca aparecia e nunca existiu. Mas que seria sonhada até a noite do dia seguinte.

Pregado no poste: “Como era bom viver em Campinas!”

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