A lingüiça do bar

O “rei da lingüiça” saiu, mas a lingüiça do rei ficou. Que susto, Pacóla! Pensei que o bar também tivesse se aposentado com o Tonhão!

Que me perdoem as Sadia, Perdigão, Seara e Chapecó da vida, mas lingüiça tem de ser daquelas de boteco, penduradas lá no alto, quase no teto, em ripa presa com arame, deixando escapar o aroma pela rua. Não há fome que resista, não há barriga cheia que recuse. Assim acontece no Bar da Lingüiça.

Para algumas pessoas, faz um mal desgraçado, mas é uma delícia. (Na verdade, no sanduíche de lingüiça, o que faz mal, mesmo, é o pão, se não estiver bem crocante, ou o queijo, se não for derretido junto com ela na chapa. O ovo, também: se não é de galinha caipira, desce meio esquisito. Falar em ovo com lingüiça, este é o prato favorito dos barrageiros nos canteiros de obras do Brasil. Sabe como eles chamam a essa iguaria de dois ovos com lingüiça no prato? “Sonho de noiva”…).

O “Bar da Lingüiça” merece ser tombado pelo patrimônio histórico. São 63 anos atraindo gente como aquelas figuras de praças públicas do mundo inteiro atraem pombos com o melhor milho. Ele é, a um tempo, reduto e resumo da raça e de tipos humanos que vivem e passeiam por Campinas. Lá vão de “prostituta a primeira-dama”, observa Tonhão. Verdade. A coleção de gente famosa atraída pelo sabor do sanduíche é de fazer inveja à calçada da fama de Hollywood. O “rei” se lembra de Roberto Carlos, Marta Rocha, Paulo Egydio Martins e dona Lila, Jânio Quadros, o time do Santos (daquele Santos), o time do Guarani campeão brasileiro de 78 (daquele Guarani), Jair Rodrigues, artistas de teatro e televisão, atletas, modelos, agentes de segurança do Ronald Reagan — se bobear, Monica Lewinski aparece por lá. Afinal…

Esse sanduíche do Tonhão é para devorar sem culpa nem medo de ser feliz. Se  Sérgio Porto, o inesquecível Stanislaw Ponte Preta, estivesse entre os famosos que freqüentam o incrível Bar da Lingüiça, diria o mesmo que dizia de uma boa feijoada: “Isso é para ser saboreado com a ambulância na porta!”.

Mas nenhum desses figurões passaria pelo bar, que não fecha jamais, se antes, sua magia não tivesse sido descoberta pelos trabalhadores, gente do povo: motoristas e cobradores de ônibus, guardas-noturnos, policiais, jornalistas, poetas, bêbados e equilibristas. É como churrascaria de beira de estrada: se entre onze da manhã e duas da tarde, ela estiver lotada de caminhões na porta, pode parar porque a comida é boa. Ninguém conhece melhor a qualidade do que come do que quem precisa trabalhar para ganhar e comer o pão de cada dia.

Já que o nosso Tonhão decidiu pendurar para sempre as chuteiras, digo, a lingüiça, para voltar à sua Porto Ferreira, de onde saiu ainda jovem, resta o consolo de que o bar, ponto de referência da Avenida João Jorge, não será fechado. Mas ele ficará meio estranho sem sua personagem principal. Assim como o restaurante do Pachola sem o Pachola, lá no Mercadão; como ficou o Ponto Chic sem o “Jânio”, na frente da estátua do Carlos Gomes; o Facca sem o Facca… Tomara que seo Ambrósio Stefanello arrume outro lingüceiro tão bom e simpático como o Tonhão.

Tonhão, se você escrever um livro com as histórias que viu e ouviu atrás desse balcão sagrado, não se esqueça daquela em que escolheram o motorista que levou os trilhos de bonde embora de Campinas.

Pregado no poste: “Bandido na cadeia custa mais do que seu filho na escola”

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