A lição do barbeiro

Só acontece com o Vicentão.

Ele precisava cortar o cabelo. Passou na frente do salão que freqüentou por mais de trinta anos, mas a porta estava fechada, em pleno dia de trabalho. Ligou para o dono e levou um choque:

— Fechei o salão. Estou doente, muito doente, e só dá parar cortar o cabelo dos amigos, mesmo assim, aqui em casa. Estou no fim…

— Ficou ótimo, como sempre. Tome 100 paus – o troco eu pego no inferno.

(Você conhece o Vicentão? Não? Então, não repare. Ninguém consegue ficar triste nem indiferente perto desse homem bom.)

Quando foi cortar cabelo outra vez, seu barbeiro já havia morrido.

Saiu pela cidade montado (ela parece uma búfala) em sua camionete atrás de outro. Na Salles Oliveira (Atenção, isso só acontece com o Vicentão), entrou num salão e o barbeiro pediu que ele se sentasse na cadeira Ferrante, dos anos 40 (aquela com gancho para prender o couro de porco e afiar a navalha). Sem dinheiro para se tratar corretamente, o barbeiro tinha seus movimentos involuntários, quase incontroláveis, por causa do mal de Parkinson.

O “serviço”, claro, não ficou bom. Mas você acha que o Vicentão teria coragem de reclamar? Jamais! Ainda deu R$ 100, mesmo vendo que na hora de cortar os pelinhos, o barbeiro quase lhe abriu outro buraco no nariz.

Na terceira tentativa, Vicentão ficou com cara de ‘pegadinha’. Ordenou: “Passa a máquina nº 2 do queixo até o alto da cabeça”. Quando olhou no espelho, o homem tinha, a duras penas, passado a nº 1 e pelou tudo. Tentou corrigir com a nº 2 e Vicentão reparou que o barbeiro erguia o braço com a mão. O “profissional” da navalha se desculpou:

— Fui operado de aneurisma, mas tenho de trabalhar para ter o que comer em casa. Se o senhor me ajudar, dá para terminar o serviço…

— Ajudar como?

— O senhor segura minha mão parada e mexe com o rosto e a cabeça, que nem cachorro quando quer carinho, entende?

“Minha cara e cabeça ficaram como laranja mal descascada, manja? E tiras de pelos. Ainda disse pra ele: ‘Quanto sacrifício! Para você ver como Deus é fogo com a gente…’”

— Nada disso! Deus é bom, a culpa é dos homens!

Pregado no poste: “Esse Guarani que ganhou sábado é o de Campinas?”

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