A lápis

Sei não, mas pelo jeito a princesa Isabel assinou a Lei Áurea a lápis. E algum engraçadinho foi lá e apagou. Você já se deu ao trabalho (livre, mas não remunerado) de ler os anúncios classificados de ofertas de emprego e de pessoas se oferecendo para trabalhar em Campinas? É triste. Os das empresas contratando trabalhadores não ocupam mais do que duas colunas. Em compensação, os que ainda têm algum dinheiro para anunciar ao mundo que querem trabalhar ocupam dez vezes mais. Sem falar desta iniciativa oportuna e exemplar do nosso Correio, que não cobra nada dos desempregados, trabalhadores de verdade, que enviarem seus currículos para publicação. Serviço público de primeira.

Mas o que espanta, mesmo, é que entre todas as profissões que se apresentam ao mercado, ainda é a mais antiga delas a que mais se expande. A oferta é descomunal. Nesse segmento profissional, parece, não há desempregadas e, agora, nem desempregados.

Alguém que ficasse trinta anos sem ler jornal teria um “troço”, se abrisse hoje a página com esses anúncios. Em primeiro lugar, pensaria que toda a população da cidade está atacada de torcicolo, ciática, lumbago, torceduras, bico de papagaio, espinhela caída, por aí. Ou, então, para que tantas massagistas numa cidade que tem só três times de futebol? Se não, como entender a quantidade de massagistas prontas (e prontos) para entrar em ação? O que esse leitor intempestivo diria, por exemplo, ao ler este anúncio: “Massagem tailandesa com uma dupla sensual — nos enroscamos em você até…”? Talvez ele perguntasse: “Mas será que isso cura?”.

Outra dúvida desse coitado leitor desavisado será a quantidade de pessoas solitárias vivendo em Campinas. Há gente de toda espécie se oferecendo para ser “acompanhante” de quem quer que seja. Até um rapaz, que se diz superdotado, proclama que “está pronto” para fazer companhia a homens ou mulheres, adultos ou jovens. (O leitor julgará que se trata de alguém que, aos 18 anos, já tem mestrado, PhD e tudo o mais, formado em Harvard. Superdotado, uai! “Mas porque uma sumidade dessas quer trabalhar como acompanhante?”). Porém ninguém anuncia disposição para cuidar de idosos. Perdida nesse meio, coitada, uma babá se apresenta. Atenção! Veja antes, se o bebê também é superdotado e se é um bebê, mesmo, que vão entregar aos seus cuidados.

Esses classificados são o retrato do Brasil de hoje, onde uma das profissões mais bem pagas é, exatamente, a mais antiga, principalmente quando exercida com luxo, requinte e tecnologia. Uma garota de 23 anos se oferece para “atendimento em casa”, por R$ 60,00, “com todos os acessórios”. Há as que cobram R$ 150,00, até mais. Tanto faz: em todos os casos, mesmo com diploma universitário, jamais conseguirão um trabalho que lhes pague tanto, neste tempos em que vale mais o corpo do que a alma, mesmo que as aparências enganem. Para que estudar numa terra como essa, se o bordel garante uma formação mais bem paga?

Sábado passado, uma jovem deu o número do telefone e se ofereceu: “Quero ser sua escrava!”.

Pregado no poste: “Futebol era uma caixinha de surpresas; agora, é uma caixa registradora”

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