A grande viagem

Mas davam medo, mesmo, os problemas na aula de Aritmética. Pavor de onze entre dez alunos do grupo escolar. Lembra do “Caderno de Ocupação”? Vinha com a página divida em dois: “Antes do recreio” e “Depois do recreio”. E a gente preenchia as folhas em branco, sem pauta, um martírio, com os problemas do “Nossa vendinha”. Agora, você se lembrou, né?”

Fazer contas de mais, menos, dividir e multiplicar; tirar a prova dos noves ou a prova real (você ainda sabe ou hoje é uma calculadora que raciocina por você?); extrair a raiz quadrada; resolver problemas; regra de três; desenhar cubos, quadrados, triângulos, pirâmides, trapézios e losangos tinha de ser no caderno quadriculado. Pensa que só engenheiro usava?

Tabuada escrita no lápis apontado dos dois lados; régua de celulóide (ou de madeira, brinde da Vanucci, do Chapéus Cury); esquadro; compasso; caneta de pau com pena Mosquito; borracha Pelicano, branca ou azul e vermelha; apontador ou gilete, mesmo? Ai, meu dedo! Caderno de linguagem, cartilha Sodré. Ou do Thomás Galhardo? “A pata nada; pata-pa; nada-na. A lebre era louca por verduras…; Vovô viu a uva; Tertuliano, frívolo e peralta…; Duda gosta de ameixas…; Tal como a chuva caída fecunda a terra no estio, para fecundar a vida, o trabalho se inventou…; Pobreza não é desdouro…; A vida é combate que aos fracos abate…; Menino mambembe, saiba você, a gente põe ‘M’ na frente do ‘PB’; Menino bobão, saiba você, hoje tem ‘H’ e ontem não tem, não…”.

Mestre Walter Zink dava aula de Desenho ou de Caligrafia com a aula de Canto. Senhora, mestra de hoje, tente. Funciona. Nada é melhor para desenhar ou aprender a escrever com letra bonita do que cantar ao mesmo tempo. Todos os hinos. Desde o “Virudu” até o “Japonês tem cinco filhos”. E tome “Luar do sertão”, “Chão de estrelas”… Sem falar no “Pai Nosso” cantado, obra do maestro dos mestres, Carlos Zink, uma das melodias mais lindas que já ouvi. O sinal batia e ninguém queria ir embora pra casa. Essa, sim, era uma grande “viagem”.

Amanhã, a trágica viagem ao futuro.

Pregado no poste: “Salário R$ 151; governo 171”

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