A fuzilada

A maioria das piadas tem um pouco de verdade. Ou refletem situações verdadeiras. De tão repetidas, quem ouve pensa que é só uma anedota. De repente, percebe que o que era contado como piada acontece. Além dos coitados dos portugueses, funcionários públicos, os barnabés, costumam ser vítimas do anedotário popular, sempre carregando a fama de vagabundos, aproveitadores, trambiqueiros, corruptos, inúteis. Alguns são tudo isso junto e insolentes. Como em toda a parte.

Lembra daquela? Alguém liga para a repartição perguntando por um servidor e ouve a resposta: “Ele não está, mas o paletó está”. Essa é do tempo do Zagaia. Hoje, como não se exige mais paletó de burocrata oficial, o pilantra nem precisa disfarçar. Arranja um padrinho político, vira fantasma, nem aparece. No fim do mês, leva pra casa o holerite com o dinheiro que o povo deu para ele continuar vagabundo profissional. Até entra na greve pedindo aumento. Pior é que todos ficam com a fama.

Há muitas histórias. O carpinteiro do serviço funerário ergue o martelo; bateu meio-dia, o prego fica enfiado pela metade no caixão. Só depois das duas, ele termina de pregar. O defunto que espere. A distinta “servidora” inicia a correspondência: “Prezado Dr. João Qu”. Deu cinco horas, ela se manda. No dia seguinte, continua: “…adros. Conforme seu ofício datado de 20 do corrente…”.

Já imaginou se um bombeiro larga o combate ao incêndio pela metade, porque já cumpriu sua jornada de trabalho? Ou se um médico abandona o paciente na mesa de operação porque o SUS não paga hora extra? E o soldado da PM, que mandou o bandido voltar outro dia para ser preso em flagrante, porque naquele dia ele estava de folga? (Depois que um bandido algemou um soldado aí em Campinas, tudo pode acontecer – até um deles aparecer por aí, pedindo voto.).

Existe aquele que ficou com a mão suspensa no ar, segurando o carimbo, e mandou o aposentado voltar no dia seguinte, porque o expediente havia acabado. E tudo o que o aposentado precisava era daquele carimbo no atestado, para provar que estava vivo. Fico imaginando: se a prostituição fosse uma atividade estatal e cada casa uma repartição, como seria? Não, não estou dizendo que aquelas meninas também sejam servidoras públicas. Mas pensando bem… Não são? Acho que não.

Piada? Aconteceu comigo semana passada. Um pesquisador, lotado no gabinete de uma secretaria estadual, ficou de me enviar pelo fax um documento com cinco páginas. Telefonou avisando que, em seguida, sua secretária transmitiria tudo. A fulaninha enviou três páginas, interrompeu a transmissão e me falou, juro por Zeus, o seguinte: “Amanhã eu transmito as outras duas, porque terminou meu expediente; hoje tem jogo do Brasil e a gente pára mais cedo.”.

— A senhora está brincando, não?

— Não senhor. Hoje o expediente termina agora…

— Se você está falando sério, você é uma vagabunda! Seu chefe vai me perguntar sobre o documento e eu vou dizer a ele sobre esse absurdo!

— Pode dizer… Horário é horário e não vai me acontecer nada. Com licença, vou desligar. Pensa que por isso vou ser exonerada a bem do serviço público?

— Exonerada, não. Você deveria era ser “fuzilada” a bem do serviço público!

Desligou, não transmitiu o documento, não foi exonerada nem fuzilada.

Pregado no poste: “Professores em greve de fome, com fome de greve ou com salário de fome?”

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