A cidade do sol quadrado

Minha avó morava em um casarão na Avenida Barão de Itapura, nº 652. Nos fundos, a garagem da Viação Bonavita; na frente, esquina com a Rua Cândido Gomide, um posto de gasolina e mais adiante, o “campo da Mojiana”, com os holofotes das torres de iluminação disputando com as fagulhas do trem a lenha quem iluminava mais as noites daquele lugar mágico de Campinas, entre o Botafogo e o Guanabara, a caminho do Castelo. As noites da cidade eram calmas. Violência, nenhuma. Marginais? Alguns ladrões de galinha, mas só no Furazóio (depois do Taquaral) e no Chora-Coati, no “além São Bernardo”. As portas daquela casa não tinham fechadura, só trinco. Para “espantar” os ladrões, que nunca entraram ali, ela pendurava nas maçanetas um caldeirão cheio d’água. “Se um bandido forçar a porta, o caldeirão cai, faz um barulhão e ele foge assustado…” Nem havia tampa no alçapão do forro de madeira, tranca nas portas, luminárias do lado de fora, muito menos campainha. Ah, havia uma armadilha: toda noite, ela passava um barbante (que chamava de “marrio”) de um lado ao outro do corredor que vinha do portão: “Se ele entrar, trupica no cordão…” No quintal, acredite, existia um espantalho, para assustar gambás que ameaçavam as galinhas. Um fox paulistinha, a “Lula”, dava conta do resto.

Naquele tempo, bastava.

Aos poucos, o medo da cidade foi crescendo. Cacos de vidro e espetos de ferro já ornamentavam os muros, cada vez mais altos. Em nome da segurança, os habitantes abriam mão do sol. As portas ganharam tranca, fechadura Yale, pega-ladrão, olho mágico e, nos portões, correntes de aço com cadeado. Para ajudar os “tranca-ruas” (inspetores de quarteirão), criaram a guarda noturna. Eles apitavam tanto, a noite inteira, que ganharam o apelido de “grilos”. Lembra deles?

Vítimas de ladrões sofisticavam pouco mais: grades de ferro nas janelas. Algumas passaram a ter canil no quintal. Ao latido dos vira-latas misturou-se o dos pastores alemães, boxers, os “policiais”. Outros criavam até perdigueiros, embora nunca fossem caçadores, mas já se sentissem “caçados” na terra em que moravam. Para virar selva faltava pouco. Virou.

Pela reportagem do Maurício Barbosa que saiu no domingo, o cenário já é de horror. Se a indústria da segurança é a que mais cresce em Campinas, ela está deixando de ser cidade para se tornar um quartel. Que infeliz cidade, a nossa!

Quem poderia imaginar a necessidade de se alugar um cão de guarda? Nem o cão nem os guardas. Cerca eletrificada e monitorada? O que é isso? Pra pegar “Ricardão” ou marido fujão? Alarme? Guarita com vigia armado 24 horas? Câmeras de vídeo? Circuito de TV? A programação ajuda a espantar bandidos? Carros blindados?

Tenho medo de chegar aí e ver meus conterrâneos escondidos em armaduras, com máscaras de ferro, empunhando metralhadoras, revólveres com mira a laser e ostentando crachá, para se saber quem é quem. Todos passeando em tanques de guerra. O trânsito deve estar pior. O quê? A Prefeitura vai colocar nas avenidas radares antitanques?

Agora, a delinqüência está o dia todo em toda a parte. Livre.

Os campineiros é que foram parar atrás das grades. Qual o endereço da sua cela? E as promessas eleitorais de segurança? Ah, os políticos também estão presos? Não diga!

 

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