08h15 e 09h50

Era dali que os trens partiam de Campinas para o interior. A Viação Cometa que me desculpe, mas viajar de trem sempre foi muito mais gostoso e seguro do que de ônibus. Fui freguês da estrada de ferro até o golpe de misericórdia.

De Carvalho Pinto a Mário Covas, de JK a FHC, cada um deu um tiro no coração dos trens do Brasil. Nenhum fez nada por eles – todos, e seus cúmplices, ajudaram a exterminá-los, em defesa dos interesses das multinacionais do petróleo, da indústria automobilística, das empreiteiras rodoviárias, dos poderosos. Governantes deste país parecem estar sempre de costas (ou de quatro?), quando está em jogo o interesse do povo, seu patrimônio, sua história, sua alma.

A estrada de rodagem não fez a riqueza de nenhuma cidade paulista. O progresso sempre chegou de trem – ele construiu a grandeza e fez a história do estado mais rico. O “largo da Estação” era tão importante quanto “o largo da Matriz”; o padre, tão respeitado quanto o chefe do trem; o relógio da igreja, tão exato quanto o apito da locomotiva, para reger a vida das cidades. A pujança de São Paulo viajava de trem. Quando acabaram com ele, começaram as lamúrias que duram até hoje – imagine, o governador paulista, agora, entra em “guerra fiscal” com outros estados, para atrair investimentos. São Paulo nunca precisou disso.

Em contrapartida, e que sirva de exemplo na hora dos próximos votos, nenhuma nação desenvolvida abre mão de suas ferrovias. “Inteligentes” somos nós. Nossa miséria é fruto dessa “inteligência” e da esperteza dos que levam nossos votos.

Quando vi a fotografia do Augusto de Paiva, no “Correio de domingo, mostrando as ruínas da Estação da Mogiana, na Praça Mauá, e da agonia da Estação da Paulista, no alto da Treze de Maio, com o relógio parado às 09h50, lembrei-me, na hora, do relógio da torre de Hiroshima, parado às 08h15. É assim que eles querem o Brasil: arrasado.

Pregado no poste: “O último que sair leve o apito do trem”

 

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